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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

"... E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças."

"O rouge virou blush. O pó-de-arroz virou pó-compacto. O brilho virou gloss. O rímel virou máscara.
A Lycra virou stretch. Anabela virou plataforma. O corpete virou porta-seios. Que virou sutiã. Que virou silicone.
A peruca virou aplique… interlace… megahair… alongamento. A escova virou chapinha.
... ‘Problemas de mo...ça’ viraram TPM.
Confete virou MMs.
A crise de nervos virou estresse.
A tristeza agora é depressão.
O espaguete virou miojo.
A paquera virou pegação.
O LP virou CD. A fita de vídeo é DVD. O CD já é MP3.
É um filho onde eram seis. O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail.
O namoro agora é virtual. A cantada virou torpedo. E do ‘não’ não se tem medo.
O break virou street. O samba, pagode. O carnaval de rua virou Sapucaí. O folclore brasileiro, halloween.
Lobato virou Paulo Coelho. Caetano virou um pentelho. Elis ressuscitou em Maria Rita. A AIDS virou gripe. A bala antes encontrada agora é perdida. A violência está maldita. A maconha é calmante.
O professor é agora o facilitador. As lições já não importam mais.
A guerra superou a paz. E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças."

Luis Fernando Veríssimo

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PRECONCEITO

MEUS AMIGOS Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. Oscar Wilde