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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


Vira lata
Ei, você, por favor, devolva o meu coração?
Aliás…não devolva, leve consigo, a mim ele nunca obedeceu, quem sabe se nas mãos de outro ele não seja mais obediente!
Leve! Pode levar!
Mas promete que vai cuidar? Promete?
Embora ele seja mal criado, a gente se afeiçoou durante todos estes anos, e sabe né? É que nem cachorro, pode apanhar o que for, deu dois minutos, já tá balançando o rabo de novo querendo brincar… e esse bicho adora brincar e me dá uma canseira desgramada às vezes…tem horas que eu NÃO QUERO BRINCAR e lá vai ele… nem liga pra mim, fica pulando que nem doido e quem sofre? O dono, lógico!
Mas fique tranquilo, pra tratar dele é bem simples, dê de comer duas vezes ao dia. Suas comidas preferidas são: poesia e beijinhos.
Varie dando música, flores – ele ama orquídeas – derrete-se todo! Filmes ele adora e não tem muita preferência de gênero não, coração vira-lata, sem muita exigência.
Adora ficar enroscado, sentadinho do lado do dono na cama, de preferência com um bom livro.
Pra beber ele é mais enjoado…gosta de vinho bom, acompanhado de água com gás! Bebe poesia também, pode colocar na tigelinha ou mandar por sms, que ele vai que vai!, fica todo animado dá gosto de ver!
Às vezes acontece dele ficar tristinho… quando ele estiver murchinho, amuado, porque a gente sabe, né?, nem sempre a vida é fácil…cubra o pobre de carinhos, cuide dos machucados, vai ver como ele se recupera rapidinho! 
Se um dia – digo SE pq pode nunca acontecer – SE um dia lhe der na telha – e você sentir que é absolutamente legítimo – diga que o ama.
Vou dizer, não tem coisa que ele goste mais de ouvir.
Fica louco, pula, bate a mil por hora, dá cambalhota, se baba todo…
E fique sabendo… no dia em que você disser isso, é bem provável que ele corra, que ele suma da sua vista por um tempinho, não fique assustado, ele volta rapidinho…
Ele não vai fugir de você, eu lhe garanto, palavra de dono!, ele só vai longe pra parar de bater um pouquinho, pra ficar quietinho um instante… é que sabe como é… ele aprendeu, durante todos estes anos, que é no silêncio que se assimilam as coisas importantes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

"... E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças."

"O rouge virou blush. O pó-de-arroz virou pó-compacto. O brilho virou gloss. O rímel virou máscara.
A Lycra virou stretch. Anabela virou plataforma. O corpete virou porta-seios. Que virou sutiã. Que virou silicone.
A peruca virou aplique… interlace… megahair… alongamento. A escova virou chapinha.
... ‘Problemas de mo...ça’ viraram TPM.
Confete virou MMs.
A crise de nervos virou estresse.
A tristeza agora é depressão.
O espaguete virou miojo.
A paquera virou pegação.
O LP virou CD. A fita de vídeo é DVD. O CD já é MP3.
É um filho onde eram seis. O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail.
O namoro agora é virtual. A cantada virou torpedo. E do ‘não’ não se tem medo.
O break virou street. O samba, pagode. O carnaval de rua virou Sapucaí. O folclore brasileiro, halloween.
Lobato virou Paulo Coelho. Caetano virou um pentelho. Elis ressuscitou em Maria Rita. A AIDS virou gripe. A bala antes encontrada agora é perdida. A violência está maldita. A maconha é calmante.
O professor é agora o facilitador. As lições já não importam mais.
A guerra superou a paz. E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças."

Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Eu não vou pro inferno
eu não iria tão longe por você
mas vai ser impossível não lembrar
vou estar em tudo em que você vê:
- Nos seus livros, nos seus discos
Vou entrar na sua roupa
e onde você menos esperar
eu vou estar...
Eu não vou pro céu também
eu não sou tão bom assim
e mesmo quando encontrar alguém
Você ainda vai ver a mim:
- Nos seus livros, nos seus discos
vou entrar na sua roupa
e onde você menos esperar;
Embaixo da cama
nos carros passando
no verde da grama
na chuva chegando
Eu vou voltar...Capital Inicial

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma Flor rara.

Havia uma jovem muito rica, que tinha tudo: um marido maravilhoso, filhos perfeitos, um emprego que lhe pagava muitíssimo bem e uma família unida.
O estranho é que ela não conseguia conciliar tudo isso. O trabalho e os afazeres lhe ocupavam todo o tempo, e pouco sobrava para a família.
Um dia, seu pai, um homem muito sábio, deu a ela uma flor muito cara e raríssima, da qual havia apenas um único exemplar em todo o mundo. E disse a ela:
- Filha, esta flor vai te ajudar muito mais do que você imagina! Você terá apenas de regá-la e podá-la de vez em quando, às vezes conversar um pouquinho com ela, e ela dará em troca esse perfume maravilhoso e essas lindas cores.
A jovem ficou muito emocionada, afinal a flor era de uma beleza sem igual. Mas o tempo foi passando, o trabalho consumia todo o seu tempo e a sua vida, não permitindo que ela sequer cuidasse da flor. De volta à sua casa, ela olhava a flor, que ainda estava lá, não mostrando sinal de fraqueza ou morte. Apenas estava lá, linda, perfumada. Então ela passava direto.
Até que um dia, mal entrara em sua casa, a jovem leva um susto! Sem mais nem menos, a flor morreu. Suas pétalas estavam murchas e escuras, suas folhas, ressecadas. A jovem chorou muito e contou a seu pai o que havia acontecido.
Seu pai então respondeu:
- Eu já imaginava que isso aconteceria e não posso te dar outra flor, porque não existe outra igual a essa. Ela era única, assim como seus filhos, seu marido e sua família. A relação com as pessoas que nos amam é como a flor: você deve aprender a cultivá-la, dar atenção a ela.
Assim como a flor, os sentimentos também morrem. Você se acostumou a ver a flor sempre lá, sempre colorida, sempre perfumada, e se esqueceu de cuidar dela. Cuide das pessoas que você ama!

PRECONCEITO

MEUS AMIGOS Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. Oscar Wilde