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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Quando estiver em dificuldade E pensar em desistir, Lembre-se dos obstáculos Que já superou. OLHE PARA TRÁS. Se tropeçar e cair, levante, Não fique prostrado, Esqueça o passado. OLHE PARA FRENTE. Ao sentir-se orgulhoso, Por alguma realização pessoal, Sonde suas motivações. OLHE PARA DENTRO. Antes que o egoísmo o domine, Enquanto seu coração é sensível, Socorra aos que o cercam. OLHE PARA OS LADOS. Na escalada rumo às altas posições No afã de concretizar seus sonhos, Observe se não está pisando EM ALGUEM OLHE PARA BAIXO. Em todos os momentos da vida, Seja qual for sua atividade, Busque a aprovação de Deus! OLHE PARA CIMA. "Nunca se afaste de seus sonhos, pois se eles se forem, você continuara vivendo, mas terá deixado de existir". (Charles Chaplin)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre Simplicidade e Sabedoria

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho. Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições. No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só. Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única. Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26). O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa. Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“ Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“ Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“ Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um... A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade. O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta...“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...“ “Resta essa capacidade de ternura...“ “Resta esse antigo respeito pela noite...“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza...“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram. As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem. Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar. Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas. Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração...“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)

Em busca da sabedoria

buscasabedoria-Heart-Mandala.jpg Desenvolver o que se chama de inteligência espiritual é um grande passo rumo à paz de espírito Alcançar o sentimento de felicidade alheio às condições financeiras e circunstâncias da vida. Uma tarefa aparentemente impossível, não é? Não. Pelo menos para quem cultiva uma inteligência que vai além do raciocínio lógico, do conhecimento científico e de outros parâmetros que costumam medir o intelecto humano. Trata-se de desenvolver a chamada inteligência espiritual, uma faculdade difícil de ser alcançada, mensurada ou definida, mas que começa a ser pensada como uma ferramenta de transcendência do espírito, sustentada pela fé - seja ela religiosa ou não -, em que se percebe o quão rico é o universo e que o apego a pequenas coisas pode impedir a concretização de uma vida mais leve e feliz. À primeira vista, parece conversa de maluco. Mas basta o convívio - ou um mero contato - com quem vive uma busca constante pelo autoconhecimento e por meios de apreciar cada detalhe da existência, para questionar esse rótulo e perceber que de loucos eles não têm nada. Dalai Lama, Mahatma Gandhi e São Francisco de Assis são exemplos de gente que soube traçar um caminho em busca da espiritualidade. Mas não é preciso ser um mito para ser admirável. A inteligência espiritual independe de classe social, raça, religião ou profissão. A atriz paulista Odete Lara, musa da bossa nova e do Cinema Novo, escandalizou o Brasil ao fazer sexo com Norma Bengell no filme Noite Vazia, de Walter Hugo Khoury, em 1964. Uma cena polêmica que incomodou os moralistas da época e encheu os homens de desejo. Apesar do sucesso que fazia, Odete não se sentia realizada. ''Minha vida era agitada, cheia de correria, voltada unicamente para o trabalho. Seguia um ritmo baseado na competição que normalmente impera nos grandes centros urbanos. Eu não era feliz. Só conhecia a falta de sossego e a ansiedade.'' Aos poucos, a então atriz começou a procurar outras formas de ser e de viver. Com muita leitura e travando contato com pessoas que buscavam tanto quanto ela a paz de espírito, Odete se transformou. Largou a carreira em 1974 e hoje vive em um sítio em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio. Convertida ao zen-budismo, mantém uma rotina simples e pacata, porém bem mais agradável. ''Tenho o hábito de cuidar da qualidade da minha alimentação, faço exercícios de ioga, caminho e medito diariamente'', conta. Apenas uma coisa a entristece. ''O sistema voltado unicamente para o lucro, que reina no mundo e causa tanta injustiça e, conseqüentemente, violência. Não fosse isso, minha felicidade seria total''. A prática da meditação realmente parece ser um grande instrumento para alcançar esse estágio de transcendência, desapego material e autoconhecimento. Mas, não é necessário ser budista como Odete para desenvolver uma ''alma inteligente''. A fé, seja em Deus, Alá ou em uma força superior ''não nominada'' leva a uma conexão com o inexplicável e ajuda o ser humano a entender o que não é palpável nem óbvio. Ajuda a preencher, por exemplo, o vazio deixado pela falta de respostas para famosas questões como ''quem somos?'', ''de onde viemos?'', ''para onde vamos?''. ''Ter fé é possuir a capacidade de lidar com a vida e com o que ela nos oferece e propõe. A gente deve aprender a apreciar isso tudo'', ensina o rabino Nilton Bonder, autor do livro Fronteiras da Inteligência - A Sabedoria da Espiritualidade (ed. Campus). Assim como Bonder, o antropólogo Leonardo Boff acredita no poder das religiões para atingir a inteligência espiritual, já que são expressões claras e ferramentas de transcendência. ''Por caminhos diferentes, todas as religiões querem dizer que o ser humano não é refém deste mundo. No Brasil, é lindo o fato de nós não nos fixamos em uma só expressão de religiosidade. Incorporamos várias, como a católica, a evangélica, a budista, a tradição afro-brasileira do candomblé, o santo daime, entre outras'', exemplifica Boff, autor de Tempo de Transcendência (ed. Sextante). O antropólogo explica que essa transcendência é a capacidade que o ser humano tem de superar os limites impostos. Não em termos materiais, mas na construção de um pensamento infinito, que ultrapassa as barreiras. ''Esse termo define o homem como aquele que está no mundo e no universo, mas que não pode ser aprisionado. Somente o infinito sacia sua busca sem fim'', completa. Apesar de concordarem com o papel positivo que a prática religiosa pode desempenhar na busca pela espiritualidade, Leonardo Boff e Nilton Bonder alertam para o risco da má interpretação ou da ignorância. ''Todas as religiões incorporam não apenas limitações, mas também equívocos e erros. Por exemplo, dificilmente se nota a espiritualidade numa religião que rebaixa a mulher ou despreza minorias, como os homossexuais. Devemos sempre, a partir da transcendência, submeter todas as religiões a uma crítica severa. Verificar se elas favorecem esta experiência ou se a dificultam'', ressalta Boff, expulso da Igreja Católica por ir de encontro a certos paradigmas da instituição. Bonder também faz seu alerta. ''É preciso ter cuidado com as tradições religiosas, porque elas também podem ser uma forma de preencher a ignorância apenas para gerar dominação e superstição'', pondera o rabino. Ma Prem Achala, que se chamava Rosana San Juan e era uma típica workaholic, parece já ter entendido esses recados. Se durante uma época ela foi, como conta, ''histérica, nervosa, impaciente, ansiosa'', entre outros adjetivos comuns para pessoas dominadas pela competição capitalista, hoje ela aprecia e dá valor a cada momento simples da vida. ''O mundo é mágico. Precisamos enxergar tudo o que acontece como uma possibilidade de crescimento, procurando aprender inclusive com os episódios mais tristes e difíceis'', afirma. Para ela, até de sentimentos negativos podemos tirar proveito. ''Devemos trabalhá-los procurando canalizar a emoção que proporcionam para atitudes positivas'', diz ela, que apesar de bem mais tranqüila, jura que não perdeu a intensidade com que realiza suas atividades diárias. Achala, que trabalha com grupos de meditação e autoconhecimento no centro Namastê, acredita tanto na melhora de sua qualidade de vida que se autodelegou uma missão: ''Procuro ser uma agente de mudanças no mundo, pois não podemos nos ausentar dos problemas que existem. Gosto de fazer com que as pessoas sejam mais felizes e vivam mais em paz com elas mesmas. Assim, dou minha contribuição para mudanças de vida, que podem ser individuais ou para a sociedade como um todo'', diz. Leonardo Boff, um crítico severo da cultura que predomina no mundo, não poupa certas formas de busca de autoconhecimento na hora de definir o papel da inteligência espiritual. ''Valoriza-se o que pode ser desfrutado e consumido imediatamente. Há uma oferta de todos os tipos de produto para preencher as carências que todo ser humano possui, mas esse não é o caminho. Transcendemos quando procuramos melhorar, crescer e abrir novos horizontes. Além de recomeçar. Sempre'', ensina. Quem pode deter os tsunamis, furacões, terremotos e tempestades? Boff responde à própria pergunta sem titubear. ''Nem Bush com toda a sua arrogância.'' Fenômenos naturais como os que vêm assolando o mundo são exemplos para vermos como a vida é efêmera e o ser humano é pequeno diante do universo. O lado prático Por ser uma expressão teoricamente nova e sem um significado completamente definido, o conceito de ''inteligência espiritual'' conta com diferentes interpretações. Em seu livro Inteligência espiritual (ed. Mauad), a escritora Maria Nunes atribui à expressão características práticas - com uma pitada de psicologia -, fugindo da espiritualidade, mas sem abandonar a idéia do autoconhecimento. Para a autora, a inteligência espiritual ajuda a compreender e a conviver com fenômenos que ocorrem em nossas vidas e que, segundo ela, não têm explicação lógica. Entre eles, sonhos lúcidos, coincidências, clarividência, premonição, telepatia e o tão corriqueiro déjà vu. ''O pressentimento é um deles. É algo que vem de forma inesperada, não programada. É fruto de uma intuição. Onde entra a inteligência espiritual? No discernimento, na tomada de decisão sobre a crença ou não nesse presságio. Conforme a pessoa desenvolve a capacidade intelectual do espírito, ela será mais capaz de fazer essa distinção.'' Entre as maneiras de atingir esse estado de consciência, a escritora destaca atitudes como evitar reações automáticas e cultivar o silêncio. Objetivos * Conseguir dar um ''tom sagrado'' a pequenas coisas da vida * Não se deixar abater facilmente e tirar lições positivas sempre, até de fatos ruins * Buscar um estado constante de bom humor * Ser otimista até em situações adversas * Assumir a culpa por suas ações, sem se colocar em posição de vítima * Ter capacidade de transcendência, ou seja, de superar limites * Buscar atitudes nobres como perdão, compaixão, humildade, gratidão e solidariedade * Transformar sentimentos negativos em atitudes positivas. Por exemplo: usar a raiva como fator de motivação * Evitar o apego a bens materiais e amar mais os seres humanos * Buscar sempre o autoconhecimento Fonte: artigo publicado no Jornal do Brasil de 15 de janeiro de 2005. AUTORIA: recebi e-mail da Maria Nunes que informou a fonte do texto e explicou "Especificamente a referência a meu trabalho foi O LADO PRÁTICO." [Imagem: Creative Studio, "Heart Mandala"]

Posted by Lilia at agosto 10, 2005 10:15 AM

domingo, 12 de setembro de 2010

O que é amor Platônico? O amor platônico é uma fantasia ou seja, ele não existe. Ele é uma atração espiritual O amor platônico”. Comumente entende-se por ser aquele amor no qual, em primeiro plano, não se encontra a cobiça sexual, mas antes, uma atração espiritual. Mas porque ele levaria o nome de Platão? De fato, folheando a obra de Platão, em parte alguma se encontram sinais de respeito às mulheres. Pelo contrário, afirma que são bem menos virtuosas que os homens, superficiais, pusilâmines, traiçoeiras e supersticiosas. Aqueles homens que tivessem sido covardes e injustos , após a morte, como punição, renasceriam mulheres. O casamento não passa da tarefa de produzir uma descendência. Assim, Platão não nos oferece uma imagem romântica do amor entre homem e mulher. Na Grécia daquela época, mais que entre homem e mulher, havia ainda uma outra espécie de relação amorosa: a relação de um homem mais velho com um rapaz. Sócrates, seu mestre, ininterruptamente procura o trato com belos rapazes. Mas o relacionamento de Sócrates com os adolescentes não é da espécie usual de relação amorosa. Ai podemos ver algo do que significa “o amor platônico”. Em "O Banquete", isso é expresso no discurso que o jovem Alcebíades profere para Sócrates. Aquele amor que, com plena intensidade, dirige-se ao outro, mas que simultaneamente se contém, aquele “amor platônico”, portanto, está intimamente ligado ao modo de ser de Sócrates como praticante da filosofia e ao modo como Platão, então, concebe a essência da filosofia: como sendo essencialmente amor. A experiência de Alcebíades com Sócrates mostra que o amor filosófico não é o amor sensual. E a essência desse amor seria a saudade do belo, pois isso é que de fato é eterno no homem. Dessa forma, portanto, torna-se claro o sentido mais profundo do “amor platônico”; que não consiste tão somente na repressão da cobiça sensual, em vez disso, concede-lhe a essa seus direitos limitados, mas os exalta a uma forma mais elevada de desejo, para além da beleza dos corpos, das almas, da condução da vida e do conhecimento: o “amor platônico” insta pela beleza em si mesma. O amor consiste na aspiração pelo arquétipo do belo, do qual tudo o que é belo participa, ou seja, na aspiração pela idéia do belo. Assim, o “amor platônico” está estreitamente relacionado com a grandiosa realização do pensamento de Platão que entraria para a consciência do espírito ocidental: sua doutrina das idéias. Em suas reflexões, Platão descobre que o homem sabe desde sempre, originariamente, o que é justiça e o que são as outras virtudes. Ele traz em sua alma a idéia de todos esses retos modos do comportamento, os quais podem e devem determinar a sua ação. Mas essa conexão entre realidade e idéia não diz respeito apenas ao campo da ação humana. Também o que seja uma árvore só o sabemos desde que tenhamos em nós a idéia da árvore. O conhecimento da realidade total só se torna possível quando o homem possui em sua alma arquétipos de tudo o que é, podendo então dizer: isto é uma árvore, aquilo é um animal; isto é um crime, aquilo é uma boa ação. Isso significa que todo o real é o que é enquanto participa de seu arquétipo e enquanto aspira a tornar-se semelhante a ele. A árvore quer ser tanto quanto possível árvore; o homem, tanto quanto possível homem; a justiça, tanto quanto possível, justiça. O mundo é um lugar de incessante ímpeto pela perfeição, de amor pela idéia, pois as idéias são o real imaginário. As coisas são meras cópias das idéias e, portanto, de diminuto grau de realidade. As idéias estão livres de toda a transitoriedade. O conhecimento das idéias tem de ser atribuído ao homem antes de sua existência temporal, em uma existência anterior ao nascimento. Quando reconhece uma coisa, isso significa que o homem se lembra de uma contemplação originária dessa idéia, a qual precisa ter ocorrido antes de sua existência temporal. Portanto, conhecer é relembrar. Assim, a teoria da idéia conduz necessariamente à suposição de uma preexistência da alma e a certeza da imortalidade. Dessa existência anterior, fala-nos Platão através do diálogo Fedro, a qual deixa no homem, por toda sua vida, uma certa nostalgia. O filósofo, por sua natureza, aspira ao ser. A paixão daquele que filosofa é, portanto, a significação última do “amor platônico” e, sem ela, não haveria nenhuma procura verdadeira pelo eterno. (cf.: WEISCHEDEL, Wilhelm. Platão ou o amor filosófico. In: A escada dos fundos da filosofia. 5. ed. Trad. Edson Dognaldo Gil. São Paulo: Ed. Angra, 2006. p. 47-57.)

PRECONCEITO

MEUS AMIGOS Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. Oscar Wilde